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Abelhas: as doces imigrantes


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Publicada em: 20 de janeiro de 2015 - 11:58 horas Agronatur

Abelhas: as doces imigrantes

(Imagens - Google Imagens)


Na fronteira entre Brasil e Uruguai, dois homens estão vestidos dos pés à cabeça com roupas brancas. Diante de gaúchos típicos, de bota e bombacha, conduzindo o gado nos pampas, a cena lembra um filme de ficção científica – ambos mais parecem astronautas.

Gerson Amauri Fensterseifer, 63 anos, um dos maiores produtores de mel do Brasil, e Aroni Sattler, 63, professor de apicultura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, checam reservas de pólen em colmeias. Eu observo tudo, atento. Estou no meio de uma jornada pessoal em busca da Apis mellifera carnica, uma subespécie originária da Eslovênia, o país de onde eu também vim. Quero encontrar seus traços no Brasil e comprovar a tese de que a carnica foi uma das primeiras abelhas introduzidas nas Américas. A história da apicultura brasileira tem tons dramáticos. Tanto que pode ser comparada à própria colonização humana do país: uma saga de criaturas nativas que se fundiram com europeias e foram depois poderosamente influenciadas pela presença africana. Até a formação de um tipo híbrido e definitivo. Bem brasileiro.

A produção de mel no Brasil não teve início com os jesuítas, conforme se acreditou durante muito tempo. Os índios, antes mesmo da chegada das primeiras naus europeias, já extraíam o produto das espécies brasileiras, entre elas a jataí, a tubuna, a manduri, a uruçu e a jandaíra. As nativas fabricam mel, não têm ferrão e não picam. Por isso, são consideradas ótimas opções para a criação recreativa – para muitos, uma terapia. “Quem tem abelhas não pode ser rabugento ou teimoso”, diz, bem-humorado, Ari Eleuterio Cezimbra, 75 anos, criador de jataí.

Comercialmente, no entanto, a produção de mel das nativas sempre foi irrelevante. Essa realidade despertou nos europeus a necessidade de trazer para cá os insetos do Velho Mundo. Em 1839, o padre Antônio Carneiro Aureliano desembarcou no porto do Rio de Janeiro com 100 colmeias da cidade do Porto, em Portugal. A intenção era obter mel e também velas de cera, a ser usadas nas missas celebradas na Corte. A seguir, entre os anos de 1853 e 1880, novas colônias foram introduzidas por imigrantes europeus que se estabeleceram nos estados da Região Sul e em São Paulo. As abelhas tinham origem alemã (Apis mellifera mellifera), italiana (Apis mellifera lingustica) e eslovena (Apis mellifera carnica). No registro oficial, esses primeiros espécimes importados foram caracterizados genericamente como alemães. É isso o que me intriga. No século 19, os eslovenos eram mestres da apicultura. Foram pioneiros na exportação dos insetos. A ausência no registro se deve, acredito, ao fato de que apenas em 1879 a abelha eslovena passou a ser considerada uma nova subespécie.

No Rio Grande do Sul, as primeiras técnicas da atividade foram postas em prática por alemães, como Frederico Augosto Hanemann e Emílio Schenk – em Rio Pardo, a 145 quilômetros de Porto Alegre, a fazenda Abellina, batizada (não à toa) por Hanemann, ainda está em pé, mesmo sem atividade apícola. Durante décadas, parecia que a apicultura de origem europeia seguiria se desenvolvendo em uma trajetória sem solavancos. Até que um lance mudou completamente o rumo da história das abelhas no Brasil.

Nos anos 1950, o especialista em genética Warwick Estevam Kerr recebeu do governo brasileiro a tarefa de aumentar a produção de mel no país. Kerr se debruçou sobre planos de melhoramentos genéticos e decidiu ir à África buscar espécimes da Apis mellifera scutellata, conhecida por ser produtiva e adaptável a climas tropicais – e pelo comportamento extremamente agressivo.

Em 1956, Kerr coletou 170 rainhas na África, da quais 49 foram instaladas, um ano depois, na cidade paulista de Rio Claro. Ele pretendia cruzar as africanas com as italianas para obter um equilíbrio ideal de produtividade, facilidade de manejo e adaptação climática. Só que, no apiário, ocorreu um acidente. Um apicultor visitante removeu as barreiras que impediam a enxameação, o processo de reprodução das abelhas. Como resultado, 26 colmeias escaparam e começaram a se reproduzir na natureza. As africanas e as europeias acasalaram – as nativas safaram-se desse destino porque são biologicamente incapazes de se misturar às Apis melliferas. Diante da força e da velocidade de reprodução das africanas, em apenas 20 anos elas dominaram por completo as espécies estrangeiras na América Latina – com exceção das regiões andinas –, formando um poli-híbrido chamado de “abelha africanizada”.

A agressividade dos insetos levou pânico às ruas das cidades e gerou um problema no manejo para os apicultores. Muitos abandonaram a atividade. Pior: depois de vários acidentes, até mesmo com a morte de pessoas, programas de TV e jornais divulgaram reportagens sensacionalistas a respeito dos enxames fatais. O Brasil virou a terra das “abelhas assassinas”.

O apicultor gaúcho Gerson Amauri Fensterseifer sentiu na pele, literalmente, a dificuldade de lidar com as novas abelhas. Em agosto de 1967, um dos enxames europeus que mantinha em casa morreu. Ele optou por não retirar a colmeia vazia naquele momento. Não sabia que, de um dia para o outro, as recém-chegadas africanizadas poderiam ocupar o criadouro. Quando, no dia seguinte, Fensterseifer se aproximou da colmeia, teve a surpresa da qual, mais de 40 anos depois, ainda se lembra em detalhes. Naquela manhã, vestia roupas leves e nem sequer usava luvas – o traje que costumava vestir ao lidar com as europeias. Ao se aproximar da colmeia, levou mais de 150 picadas. Da experiência, além das dores, ficou a lição de que era preciso pensar outra maneira para lidar com essas abelhas.

Os apicultores desenvolveram então um fumigador, instrumento que, ao liberar fumaça, sinaliza às abelhas que a colmeia está em chamas, o que as leva a iniciar um plano de fuga, em vez de um de ataque. Também aprimoraram os trajes para minimizar a chance de picadas e evitar, com isso, que as abelhas liberassem um feromônio de alarme – um odor que convoca o restante do enxame a atacar. E entenderam que não mais poderiam manter diferentes colmeias juntas, como é costume na Europa. Era preciso que os enxames ficassem separados, para facilitar o manuseio, e distantes de áreas habitadas.


Fonte: abril.com


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