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Rainhas dos alimentos


"Alarmados com a redução das colmeias, pesquisadores e produtores apostam na meliponicultura — produção de abelhas sem ferrão — como forma de garantir a polinização nas lavouras"

Publicada em: 7 de novembro de 2016 - 14:42 horas Apicultura

Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais, não haverá raça humana.

A frase, creditada ao físico alemão Albert Einstein, já alertava, no século passado, sobre as possíveis consequências do desaparecimento desses insetos — fenômeno que começou a ser notado na Europa, ainda nos anos 1960. Mas a preocupação da comunidade científica parece que não ter sido tão levada a sério.

Rainhas dos alimentos

Por ano, o Brasil perde de 15% a 30% de colmeias de apis mellifera, que são fundamentais à polinização (Foto: Camila Domingues / Especial)

O sumiço de abelhas vem sendo observado no mundo todo, e agora, pela primeira vez, elas foram incluídas na lista de espécies em extinção pelo US Fish and Wildlife Service (FWS), o Ibama dos Estados Unidos. A notícia, divulgada no início de outubro, ainda não traz motivo para pânico. Existem mais de 20 mil espécies de abelhas no mundo, sendo que sete delas — todas nativas do Havaí — entraram para a lista vermelha.

Em meio a esse cenário de apreensão, pesquisadores e produtores rurais estão apostando na meliponicultura — a criação racional de abelhas sem ferrão —como forma de contribuir para a preservação das espécies e garantir a polinização de pomares e lavouras, gerando incremento na produtividade e na qualidade de frutas e grãos.

O apicultor e meliponicultor Evald Gossler, de Bom Princípio, conta que a procura por abelhas nativas vem aumentando nos últimos anos. Com mais de 300 colmeias espalhadas pela propriedade, Gossler negocia enxames com produtores de todas as regiões do Estado, por valores que vão de R$ 300 a R$ 1 mil, dependendo da espécie. As mais caras são as que estão ameaçadas no território gaúcho, como guaraipo, mandaçaia e boca-de-sapo.

— A gente vê a diferença nas estufas e lavouras em termos de qualidade e produtividade. O pessoal não estava muito a par de tudo isso anos atrás. Agora, parece que a humanidade, em geral, está acordando — diz Gossler, que deu sequência à atividade do pai.

Aprenda a criar abelhas sem ferrão em casa:

Segundo a FAO, 70% das culturas dependem de polinizadores

Os números dão a dimensão da importância da ação de aves e insetos para a agricultura. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), 70% das culturas agrícolas dependem de agentes polinizadores, como abelhas (as mais eficientes), borboletas e besouros. Além de ampliar a produtividade de grãos como soja, canola e girassol em até 40%, a presença de abelhas resulta em aumento do teor de óleo nessas culturas.

Por ano, o Brasil perde de 15% a 30% das colmeias de apis mellifera (foto), espécie de abelha com ferrão utilizada na produção de mel. Embora expressivo, o prejuízo não é tão grave como no Hemisfério Norte, diz o professor de apicultura Aroni Sattler, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Lá, as perdas giram em torno de 30%, e não são repostas todos os anos, pois a enxameação é menor.

— Nos últimos anos, por causa desse sumiço das abelhas principalmente no Hemisfério Norte, as espécies nativas começaram a ser mais valorizadas, por serem uma alternativa importante de polinização — diz Sattler, que acrescenta que as abelhas nativas têm grande potencial a ser desenvolvido, mas que ainda falta tecnologia de reprodução.

De acordo com Betina Blochtein, diretora do Instituto do Meio Ambiente e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), existem entre 800 e mil espécies de abelhas no Rio Grande do Sul. Quatro delas ameaçadas. Mas, segundo a bióloga, é provável que esse número esteja subestimado, pois faltam estudos. Entre as possíveis causas apontadas para o desaparecimento das abelhas, estão a redução de áreas naturais, o uso em larga escala de agrotóxicos, além das mudanças climáticas. Ela ressalta que os agricultores têm um papel fundamental na manutenção destes insetos.

— Se a gente respeita as áreas de preservação permanente, se realmente protege a reserva legal, se usa produtos químicos de maneira ponderada e adequada, os riscos diminuem — explica Betina.

Sattler, do Laboratório de Apicultura da UFRGS, concorda que o modelo de agricultura atual exagera na aplicação de defensivos.

— Caso os produtores mantenham uma boa parceria com os apicultores, esses riscos podem ser diminuídos, especialmente com uso na dose adequada (dos agrotóxicos) e só com levantamento do dano econômico da praga — afirma o professor.

Segundo ele, o controle preventivo de pragas e doenças não deveria ser recomendado. O caminho para a salvação das abelhas - e, consequentemente, das lavouras - passa, conforme Sattler, pela conscientização dos agricultores e principalmente por um maior controle sobre o uso dos defensivos agrícolas.

— Se o agricultor usar com moderação e com cuidado de não aplicar nada durante florada, que é curta, estará resolvendo uma grande parte do problema.

US$ 12 bilhões em jogo no país

No ano passado, estudo brasileiro publicado no Journal of Economic Entomology revelou que a contribuição econômica dos polinizadores chega a 30% (aproximadamente US$ 12 bilhões) do valor total da produção agrícola nacional anual das culturas dependentes de polinizadores. Quase metade da cifra corresponde ao desempenho da soja, que foi apontada como uma cultura com dependência modesta desses agentes.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Ceará (UFC) e do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável analisaram 141 culturas. Os resultados apontaram que 85 delas dependem de polinizadores e um terço do total apresenta dependência grande ou essencial de polinizadores.

No Rio Grande do Sul, a Emater estima que 45 mil famílias estejam envolvidas com a apicultura e 10 mil com meliponicultura. De acordo com o assistente técnico Paulo Conrad, há forte incorporação de novos criadores de abelhas nativas, especialmente de sitiantes e mesmo nas áreas urbanas.

— Para uma maior expansão da meliponicultura, existe a necessidade de difusão de técnicas de manejo e cuidados com a criação racional. Esse conhecimento está nos criadores e muito pouco nas instituições. Outro entrave a ser superado é a legislação sanitária e de processamento do mel dessas espécies, para que o produto destas abelhas possa entrar para o mercado formal e possa agregar renda aos criadores.

Aumento de produtividadeSoja — 15% a 20%
Canola — 10 a 20%
Girassol — 20 a 40%
Fonte: Professor Aroni Sattler, do Laboratório de Apicultura da UFRGS

Prejuízo creditado à demasia de agrotóxico

À medida que o cultivo de soja avança na Campanha, aumentam os prejuízos do apicultor João Carlos Camargo, 56 anos. Nos últimos três anos, ele calcula ter perdido 70 colmeias — ou uma produção de, no mínimo, 3,5 mil quilos de mel — e credita a ocorrência ao uso abusivo de agrotóxicos nas lavouras próximas à propriedade, localizada no assentamento Conquista da Fronteira, em Hulha Negra.

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João Carlos Camargo, de Hulha Negra, perdeu 100% da produção em 2015 (Foto: Diogo Zanatta / Especial)

Em dezembro do ano passado, a mortandade de abelhas atingiu todas as 40 colmeias de sua propriedade. Em quatro dias, Camargo perdeu 100% da produção. Ele também considera como responsáveis pelo dano o uso de defensivos não permitidos no país, e denuncia que lotes do assentamento estão sendo arrendados para o cultivo de soja - uma prática proibida e, segundo o Incra, punida com rescisão contratual e consequente exclusão do Programa Nacional de Reforma Agrária.

— É a ganância de alguns em prejuízo do nosso meio ambiente, das pessoas que estão dispostas a produzir alimentos saudáveis, sem causar danos ambientais. É um desproposito, é triste até de comentar — diz Camargo, que também cultiva milho e feijão e cria gado de leite e de corte.

Segundo o produtor, é normal ocorrer perda de colmeia ao longo do ano, seja por doença ou falta de alimento. No entanto, nos 30 anos em que trabalha com apicultura, nunca havia registrado prejuízo total, como aconteceu em 2015. Depois do episódio, juntou alguns punhados de abelhas mortas e acionou as autoridades, para que tomassem providências.

Camargo, mais uma vez, não esmoreceu. Reinstalou as colônias em outros áreas do assentamento, mais afastadas das lavouras de soja, e conseguiu repovoar parte das colmeias (29 das 45). No fim de março, comemorou a colheita de 400 quilos de mel. Mas, com o início do plantio da oleaginosa, o sinal amarelo novamente está aceso na propriedade:

— Estou com o mesmo temor do outros anos. Se houvesse justiça, a gente iria recuperar a produção de mel. Muitos estão migrando para outras regiões, por que a produção aqui está se tornando inviável. A região era considerada um santuário para a apicultura, mas, agora, é um inferno.

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(Foto: Camila Domingues / Especial)
— O primeiro passo é identificar as espécies de abelhas nativas e os locais onde elas constroem seus ninhos, como no solo ou em buracos em troncos de árvores.

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